https://purl.pt/38934/2/
Filho de um capitão de couraceiros do l.°
império, Chanzy alistou-se aos 15 annos na
marinha de guerra. Embarcou em o Neptu¬
no onde era guarda-marinha, o almirante Roze:
Um anno depois passava para bordo da Mar-
ne. Um forte temporal arrojou a fragata para
as costas de Stora, (Argélia). Afogou-se meta¬
de da tripulação. Um marinheiro, moço e de¬
sembaraçado, chegou nadando á praia, e uma
vez ahi, sacudiu-se como um tewa nova. Era
a primeira vez que o general Chanzy pisava
terra argelina, da qual mais tarde devia ser
governador. O homem que teve um dos prin-
cipaes papevs na maior tragédia d’este século
entrava na vida, como n'um romance de Du¬
mas. A sua vida militar foi um longo dia de
batalha. Sahe de S. Cyr para entrar nos zua-
vos. Deixa a Argélia para entrar na guerra
d’Italia, e depois nas da Syria e Roma. Era
por consequência um verdadeiro soldado, quan¬
do por ordem de M. Gambetta se apresentou
em Tours, chamado da Argélia. Desconhecido
em França, trazia como passaporte duas pro-
phecias: Abd-el-Kader dissera-lhe na Syria: Es
da raça dos grandes homens de guerra; leio isto
no teu olhar tão facilmente como no do cavallo
de Setif o nome da sua familia. O marechal
Mae-Mahon prisioneiro, escrevera apenas estas
palavras:—Chanzy c ornais distincto general de
manobra entre osgeneraesquehoje(lS10)p>odem
servir o paiz.
O commandante do 16.° corpo d’exercito ti¬
nha então 48 annos. Era alto, magro, dextro e
vigoroso. Com o seu calção vermelho justo á
perna, as suas grandes botas de montar, a sua
commenda da Legião de Honra ao peito, as
tres estrellas de prata no seu kepi agaloado
d’ouro e ligeiramente in<dinado? o bigode re¬
torcido, e o seu olhar de extraordinária mei¬
guice: junto tudo á elegancia e vivacidade da
sua figura e andar, o general Chanzy pareceu
como que, a evocação súbita do nosso brilhante
passado militar. Esse perfil tão bello, tão im¬
ponente, tão francez foi-lhe inalterável duran¬
te toda a campanha; apenas ao findar o seu
kepi descahia um jmuco menos sobre a orelha.
As suas ordens do dia foram tãocorrectas e ri¬
gorosas como nas grandes manobras do campo
de Saint-Maur. Parecia não ver, nem a desor¬
dem das suas tropas, nem conhecer a derrota
já soífrida. nem ainda calcular ou suppor os
desastres do futuro. Com essa força de concen¬
tração do pensamento, e esse predominio so¬
bre si mesmo, qualidades que destinguem o seu
temperamento e o levam até á dissimulação, o
general Chanzy fingiu nada saber das nossas
desgraças. Julgar-se-hia que chegava de Sol-
ferino. Uma unica cousa lhe arrancou uma ex¬
clamação:—ver os pobres cavallos sujos, magros
e com opello compndo.
Bem depressa pareceu também, que avicto-
ria se tornava cúmplice d’aquella illusão vo¬
luntária. O general foi um dos vencedores de
Coulmiers. Coulmiers 6 uma folha de louro
n’esta historia sombria, uma especie d’essas flo¬
res que os estudantes mettem entre as paginas
do seu livro. A fatalidade porém quiz, que re-
trocedessemos. Nomeado commandante do 2.°
exercito, Chanzy tem então nas suas mãos a
parte principal da nossa fortuna militar. Que